ROTEIRO RELIGIOSO
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Antigo edifício dos Paços do Concelho

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Actual edifício dos Paços do Concelho

 

Introdução

Roteiro lhe chamamos porque implica deslocação num espaço determinado, à procura de alguma coisa que impressione dentro das povoações mas também ao longo das estradas, das ruas e veredas e nos cruzamentos rurais. Cultural e religioso porque, ainda que não rico em monumentos, o Concelho oferece a cultura que tem como produto de todas as actividades e manifestações a que se dedicou a sua população activa, muito ligada à terra e aos seus santos protectores - tudo o que constitui o seu principal património. Assim, igrejas, capelas públicas e particulares, ermidas, alminhas e cruzeiros fazem parte dos nossos registos, nas pesquisas que viemos efectuando em todas as freguesias do Concelho.

Já o afirmamos várias vezes, o Concelho de Oliveira do Bairro não possui riqueza monumental que possa dar excepcionalmente nas vistas. Uma casa ou outra, um pequeno conjunto de edifícios a sair da vulgaridade em algumas povoações, constituem motivos válidos para se conservar o pequeno património regional que temos a este nível.

Todo este espaço tem sido essencialmente agrícola ao longo dos séculos e é formado por terrenos planos em grande parte, com alguns vales produtivamente verdejantes e uma ondulação aprazível sem declives espectaculares. Encostas soalheiras ainda com alguma vinha, campos aráveis onde se cultivam a batata, o milho e o feijão; alguns terrenos mais fundos e húmidos, cobertos de uma vegetação espontânea como as espadanas, o bunho e a canízia, onde outrora se cultivava o arroz e que agora permanecem abandonados... O vale do Cértima, os da ribeira do Levira, da ribeira do Pano, até chegar ao Ribeiro da Palha e ao vale do Ribeirinho, tocando a sul-poente o Rio Boco, são hoje espaços somente cultivados aqui e além, retalhos conjugados com a forte tonalidade verde-escura dos pinhais e com sombras de árvores mais ou menos frondosas em muitos locais, quase a regredirem a uma natureza selvagem mas sempre apetecida em dias primaveris ou estivais, mais ou menos calmosos.

Tudo isso podendo alternar com terrenos saibrosos e barrentos, donde, nos últimos tempos, se tem extraído a matéria-prima para alimentar as novas fábricas de cerâmica.

Vê-se a Bairrada a começar pelo norte e pelo noroeste, onde, em pleno Verão, o barro cinzento greta à torreira do sol e onde, a custo, a vinha baixa arranca à secura do solo os últimos resquícios de água, aí naturalmente depositada, e, consequentemente, de uma frescura que parece ser impossível existir. São estas alternâncias geológicas que podem dar o bom ou o mau vinho desta região específica, conforme os terrenos são barrentos ou milhanzeiros; já referimos que, nestes, são o milho, o feijão e a batata que reinam, metidos no húmus fecundante da terra sedimentada, revolvida quase à superfície. E a recente cultura do kiwi já se vai por cá impondo, parece com bons resultados.

As aldeias mantiveram, durante muito tempo, o tipo de casa térrea ou de rés-do-chão bairradina, com a qual a gandaresa mantém semelhanças. Nada de compartimentos inúteis. Adega, arrecadações, celeiro e currais do gado, de dimensões tanto quanto bastassem para a movimentação à vontade. A cozinha, relativamente grande, com a boca do forno sobre o lar, para os necessários e inevitáveis trabalhos da alimentação diária. Sala grande, de honra, para receber o Compasso ou Visita Pascal em tempo oportuno, com o indispensável oratório privado a presidir, em momentos dolorosos, à exposição de qualquer morto da casa. Quartos pequenos, recolhidos e aconchegados, só para se gozar do descanso imprescindível da noite e silenciar os segredos íntimos da alcova. Pátios e logradouros em situação recatada, mas suficientes para a azáfama particular periódica de feição agrícola.

Casas de primeiro andar, relativamente poucas; era um luxo quase considerado desnecessário às actividades prementes do dia-a-dia. Só desvãos de telhados sem forro a fazerem de sótãos sobre os alpendres, extremamente úteis, em sentido geral, na casa de campo. Foi privilégio de algumas famílias da média burguesia rural poderem incluir no seu conjunto habitacional uma ou outra capela particular com imagem da sua devoção.

Os emigrantes, particularmente os da América do Norte, trouxeram, em certa altura, um tipo de casa algo diferente, muitas das vezes de primeiro andar, com cariátides a embelezarem os cimos das fachadas, em geral protegidas por azulejos polícromos. Hoje, os modelos de casa trazidos de diversos países não nos dizem nada.

O que sobressaía, porém, em quase todas as povoações era o edifício da igreja, com a sua torre sineira a elevar-se sempre acima dos telhados vermelhos do povoado. Igrejas e capelas, umas mais antigas do que outras, davam o toque elucidativo de uma população cristã, continuamente atarefada nas andanças dos seus trabalhos e na esperança de bons resultados, sob a protecção dos seus santos mais queridos.

As festas e romarias aos santos da sua devoção marcavam, e marcam ainda, espaços em tempo de lazer e de descanso periódicos, em dias especialíssimos, durante os quais se repousava das tarefas normais e se comia e bebia do bom e do melhor, com mais abundância.

O Padre Domingos Rebelo, ao anotar, na diocese de Aveiro, as invocações à Virgem, registou, para o Concelho de Oliveira do Bairro, 15 invocações para 17 lugares. Quinze invocações, se alhearmos Verba, que pertence à freguesia de Nariz do Concelho de Aveiro e que o autor regista no de Oliveira do Bairro, correspondendo a 16 lugares. Ora, em igrejas e capelas, só à freguesia da Palhaça correspondem seis invocações a Nossa Senhora, seguidas de quatro quer para Oliveira do Bairro quer para Oiã. Mas, se considerarmos as invocações omissas à Virgem e os nomes dos santos protectores, que não se confinavam ao assunto da obra, concluimos que se eleva consideravelmente a estatística das devoções nas nossas terras.

O mesmo autor, todavia, não regista, pelo menos, outras onze invocações para o nosso Concelho, a saber: Nossa Senhora do Livramento (capela particular do Troviscal); Nossa Senhora de Monserrate (capela particular - Póvoa do Carreiro, Troviscal); Nossa senhora da Boa Memória (Vila-Verde, Oliveira do Bairro); Nossa Senhora da Conceição (capela particular - Camarnal, Oliveira do Bairro); Nossa Senhora das Febres (Serena, Oliveira do bairro); Nossa Senhora das Necessidades (capela particular - Sobreiro, Bustos); Nossa Senhora dos Emigrantes (Passadouro, Troviscal); Nossa Senhora dos Milagres (Cabecinha, Oliveira do Bairro); Nossa Senhora dos Eventos (Perrães, Oiã); Nossa Senhora do Rosário com o Menino (Gesta, Oiã); Virgem com o Menino (Águas-Boas, Oiã).

Sendo assim, alarga-se muito a quantidade das invocações à Virgem nos diferentes lugares do nosso Concelho. Não temos a veleidade, contudo, de ter esgotado o seu número, porque muitas outras imagens da Virgem, juntamente com as de outros Santos, ainda que não oragos dos templos e dos lugares, se encontram nos seus interiores, como é o caso da imagem de Nossa Senhora de Lurdes e de Nossa Senhora de Fátima.

Se é verdade que em algumas destas aldeias houve núcleos republicanos até ligados a lojas maçónicas anti-religiosas e anti-clericais, não é menos verdade que a maior parte da gente do povo ficou muito unida aos ideais cristãos e católicos, como se depreende do apreço que tem revelado na construção de capelas, igrejas e cruzeiros, símbolos que revelam atitudes de compromisso através de promessas que foram bem sucedidas. Podemos concluir que a devoção à Virgem e às almas do Purgatório é uma constante que orientou a vida das nossas gentes e que, apesar de todo o progresso ultimamente verificado, a fé das pessoas continua a confirmar-se por atitudes concretas da existência, nas suas relações com a vida espiritual, ainda que, algumas vezes, toque a lenda e, o que pode ser mais grave, a superstição.

Gentes e aldeias, nas quais as leiras de terra faziam parte intrínseca da vida das pessoas, não possibilitaram a grandiosidade, ainda que comedida, de monumentos, mas fizeram surgir recantos que convidam à apreciação de momentos de serenidade e de paz e puderam suscitar emoções de grande beleza na contemplação amenamente aliciante das suas paisagens banhadas pela luminosidade e revestidas pelo vasto colorido da sua abundante vegetação. Bastava, para isso, uma pequenina capela construída num cruzamento rural, dedicada às almas, um cruzeiro encimado por uma cruz ou, simplesmente, um nicho.

Há, no entanto, um outro aspecto importante, para o qual queremos chamar a atenção: Trata-se da arte funerária nos nossos cemitérios. Falamos particularmente das campas trabalhadas em pedra de Ançã, assim como algumas capelas-jazigos de família, cujos elementos decorativos, trabalhados a cinzel se tornam dignos de interesse: além de flores, coroas de flores, anjos, imagens, objectos religiosos, também aparecem instrumentos utilizados na vida do dia-a-dia - tesoura de podar, serrote, martelo, serra, etc.

Foi notável a oficina de Carlos Soares Canteiro, situada no lugar do Areeiro, Palhaça, o qual juntamente com seus filhos e outros familiares, foram os autores de grande parte desses monumentos espalhados pelos nossos cemitérios.

Actualmente a arte funerária tomou outros estilos com a utilização do mármore e do granito polido de várias cores e com cruzes de metal.

Assim é ainda, na nossa opinião, o pequeno território deste Concelho essencialmente rural. Desejando que continuasse a ser cada vez mais próspero e mais rico, não quereríamos que fugisse ou se afastasse muito do que é por seu mérito próprio e original, nem arrastasse para si nem consigo os grandes problemas e males actuais do materialismo e da ecologia, que, naturalmente, já por cá se vão fazendo sentir.